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A Política Externa na Era Vargas
  Parte I Parte II Conclusão Referências
 
Introdução

Para a maioria dos estudiosos das Relações Internacionais, o século XX só começou em 1918, depois de acabada a Primeira Grande Guerra. As peças que se moviam no tabuleiro eram agora outras e o seu peso era variável na balança de poderes mundial.

O conflito de 14 – 18, dito mundial pela sua abrangência de escala planetária, marcou o início de uma Nova Ordem Mundial, mas não foi, como afirmou o presidente americano Wilson, "uma guerra para acabar com as guerras". Depois de Versalhes, assistiu-se a um agudizar das tensões entre os protagonistas do grande jogo político à escala global.

Com efeito, começava-se a adivinhar o que iriam ser os próximos anos: em 1917, a velha Rússia imperial deu lugar à "vermelha" URSS internacional e, um ano depois, assistia-se ao emergir de outra das potências que iram dominar o século XX – os EUA.

No entanto, iríamos ainda presenciar, até 1945, à partida final entre a expressão deturpada da velha ordem do sistema de equilíbrio de poderes (encarnada pela Alemanha, Itália e Japão) e a ambição desmesurada para o estabelecimento de um normativismo universal de leis e deveres (encarnado pelos EUA e pela maioria dos países do velho continente e da velha ordem).

Nos anos que antecederam a Segunda Guerra, as principais potências procuravam consolidar o seu poder em todos os recantos do mundo. Assim, surgiam frente a frente a América emergente e a Alemanha renascente.

O "peace loving nations" havia sido um fracasso e o eclodir do nazismo punha em cheque todas as peças da nova engrenagem que se pretendia construir. A política internacional assumiu os contornos de uma batalha estratégica, de um jogo de soma zero, tal como o xadrez, onde os ganhos de um tinham correspondência directa nas perdas de outro.

O alinhamento, à escala global, por qualquer dos lados em contenda, dependia de uma série de factores. Contudo, os mais importantes terão sido a identificação politico-ideológica, as relações económico-financeiras de dependência e interdependência e a ética. Deixemos de lado o oportunismo e a inevitabilidade, pois estes factores apenas terão sido determinantes após o início da guerra.

A esmagadora maioria das nações democráticas preferiu, desde cedo, estabelecer relações mais estreitas com o Novo Mundo em virtude do seu grau de integração com os EUA. Estes representavam uma nova concepção da realidade, marcada, no plano político, pela democracia, no plano económico, pela economia de mercado e no campo poético pela liberdade e unicidade.

Grande parte dos países de tendência autocrática alinharam, pelo menos durante os anos que precederam a guerra, pelo lado da Alemanha. Tinham em comum a visão do mundo como um grande puzzle onde a disciplina da autocracia era vital para que cada estado tivesse consciência do seu lugar, quer no plano interno, quer no plano externo; quer no plano político, quer no plano económico.

Sem prejuízo disto, houve países que preferiram não tomar posição. Muitos fizeram-no logo ao longo dos anos trinta (adivinhando o conflito que se avizinhava, ou, simplesmente, tirando partido da situação, principalmente em termos económicos). Alguns prolongaram a neutralidade até ao fim da guerra e outros, perante a inevitabilidade tiveram que optar por um dos lados.

Esta foi precisamente a situação do Brasil de Getúlio Vargas, sendo o presente trabalho uma tentativa de explicação das linhas fundamentais da política externa varguista, nunca esquecendo o enquadramento geral, ou seja, o que levou o Brasil a ter na cadeira presidencial "o Beijo" .

Em todo o período pós revolução de trinta o Brasil moveu-se numa zona cinzenta em se definir, até 1942, altura em que entrou na Guerra ao lado dos Aliados contra os países do Eixo.

A política externa brasileira deste período foi alcunhada "Diplomacia Pendular". Isto significa que o país, pessoa do seu presidente procurava uma equidistância entre as duas interpretações daquilo que deveria ser a organização dos estados na orgânica global.

Procuraremos aferir se o Brasil foi sujeito ou objecto desta "indefinição". Isto é, se procurou engenhosamente aproveitar-se da cisão entre EUA e Alemanha para canalizar para si um conjunto de benefícios (nomeadamente em termos económicos) ou se foi mais um dos palcos mundiais onde os dois países disputaram a hegemonia, tentando "comprar" o seu alinhamento.

De momento, nesta introdução, como ponto assente só temos que o Brasil era uma espécie de "attrape tout" ideológico, ou seja, reunia uma série de características, umas comuns a um lado, outras comuns a outro. Nesta perspectiva, tinha muito em comum com Portugal.

No entanto, se quanto ao Portugal de Salazar ninguém tem dúvidas acerca do carácter oportunista da sua neutralidade colaborante, já quanto ao Brasil de Vargas as dúvidas são muitas.

De todas as peças que se moviam no tabuleiro internacional, o Brasil terá sido, até ’42, jogado ou jogador?


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